terça-feira, 30 de julho de 2013

Tornei-me homem no momento em que senti-me um menino

Tornei-me homem no exato momento em que me senti um menino. 
Nesse instante. 
Nessa noite de um céu azul escuro manchado pelo cinza das nuvens. 
Brisa fria. Vento acariciando meu rosto. Tornei-me finalmente homem. 
Não é agradável crescer. Não é nada vitorioso sentir o peso da responsabilidade em saber que seus pés já trilham sozinhos, sem o profundo aconchego de alguém o segurando pelos braços ensinando-o a andar. Mas é preciso. 
Assim como um dia todos estarão face a face com a consolável “morte”, todos também estarão um dia face a face com a sarcástica ”vida”. Senti-me completamente sozinho quando encontrei os braços abertos da “vida”. Somente alguns segundos atrás. 
Sendo que a mesma já acompanhava-me silenciosamente e medrosa demais para se revelar. 
Porém algo me diz que estarei ”acompanhado” quando encontrar a (temida pela maioria) morte. E será de uma maneira direta, sem “esconderijos”. Não condiz com sua personalidade esconder-se. 
Fulgurante, instigante e totalmente contrastante não acham? O que parece ser não é. 
A morte parece ser a última a querer ser vista por todos, porém ela é a única que não irá lhe virar as costas ou demorará a aparecer. A vida foi completamente sarcástica comigo. Perdi uma das maiores alegrias de meu ser. Uma das maiores razões de não sentir-me sozinho. Porém ela tirou-me. A vida tirou-me. 
E quem estava lá para me consolar? A morte. A mesma que tira a paz dos que ficam é a mesma que dá descanso aos que ceifa. 
Vou confessar algo que poucos o sabem. 
Procurei-a e quase a encontrei com meus seis anos de idade. A busquei sem saber. Tentei encontrá-la instigado por uma vontade de companhia. Porém ela nem quis se mostrar, simplesmente acotovelou a “vida” e pediu para alertar alguém cortar a corda. 
Um outro encontro foi aos 18 anos. Esse foi um encontro um tanto diferente do primeiro. 
E creio que até algumas palavras foram trocadas em algum lugar e linguagem fora do estado chronus. Ela sussurrou baixinho. Inaudível, incompreensível ao encontrar o lobo temporal e irreconhecível para a área de Wernick.

–Não puxe esse gatilho. Não posso te abraçar agora. Nosso encontro não pode ser aqui em meio a essas árvores, em meio a essa escuridão. Nosso encontro acontecerá, mas será de uma forma mais poética. Mais condizente com a maneira que você irá tratar a vida. Trate-a bem e seu encontro comigo será bom. Somos irmãs. Cuide dela e o recompensarei.
Hoje posso compreender. Não sei qual foi o lugar que desloquei-me nesses poucos segundos de “instantes”. Porém compreendi, traduzi a linguagem na qual a “morte” bafejou suas palavras aos meus ouvidos. Entendi o segredo. 
Para merecer um encontro digno com a consolável "morte", precisarei ter um bom relacionamento com sua sarcástica irmã , a "vida". 

Incrível. Inacreditável. Impressionante. 
O equilíbrio é visível. O trabalho de ”tudo” e “todos” nesse universo é perfeito, incompreensível e infinitamente livre de parecer com o que se apresenta. 
E mais delicioso ainda, é perceber essas doses intensas de mistério. 
Parecem ter o gosto de céu, de sol, de mar. Um gosto bom. Um gosto de “sabedoria”. 
Ah, se todos pudessem sentir essa sensação de prazer na qual sinto meu ser biológico intensificar. Se todos pudessem sentir seus “estados psíquicos” adentrar os portões do reino metafísico. Seria tão profundo poder trocar ou compartilhar essas experiências. 
Esses despertares através de fazeres tão simples.

Uma simples leitura de um livro chamado A menina que roubava livros deixou-me assim. Liesel Meminger, a roubadora de livros, a sacudidora de palavras, Rudy Steiner, o Jesse Owens, cabelo da cor de limões, Hans Hubermann, o acordeonista, olhos feitos de prata e bondade, Rosa Hubermann, a mulher dona das palavras “saumensch”, “saurkel” e todos seus derivados, porém dona de um coração incontestável, Max Vandenbrug, o lutador judeu, o homem de gravetos no cabelo, e assim por diante. Ficaria um bom tempo, tomando seu tempo se pudesse citar todos belíssimos e inspiradores personagens. Leiam. 
Aconselho ler e se descobrirem realmente homens e mulheres. Ou talvez não...

Talvez...
Talvez a “vida” e “morte” deram essa oportunidade a alguns poucos ao qual me incluo.

Não é um comentário prepotente ok? 
Ao contrário. 
É reconhecendo de que coisas simples e desprezadas por muitos servem para mim. Contento-me com o pouco e o simples. Nada de complexidades. Admiro quem precisa dessas complexidades para chegar a conclusões. 
Porém, infelizmente ou felizmente não preciso. Espero que tenha sido claro e ao mesmo tempo não tenha assustado ninguém de minhas relações interpessoais fraternas, com essas declarações um tanto incomuns.

Termino com uma frase maravilhosa de nossa consolável e futura amante “morte”:  

Os seres humanos me assombram.

J.Gonçalves, 30 de Julho de 2013, (Descobri-me homem ao sentir-me menino)