sábado, 3 de agosto de 2013

Fazendo Rapadura

Não, não vou ensinar uma receita de doce. Vou ensinar uma receita de vida!
Em uma tarde cinzenta, de um inferno frio, no sul do sul da América do Sul, a vida é calma e tranquila em alguns dias como este. Família reunida em volta da lareira e uma simples vontade de comer doce, foram o cenário perfeito para desbravar mais um pouco desse mundo apaixonante que é nosso e não percebemos, pois tempos medo dele.
Coloquei açúcar demais na panela, mesmo minha mãe falando pra não fazer isso. Eis a grande falha! Não escutar quem sabe mais do que nós, seja por distração ou por desobediência pura. Aprenda a ouvir os outros, para evitar perder tempo, para evitar ter mais trabalho do que o necessário, para evitar se machucar em vão - só por teimosia.
Eu fiquei lá mexendo naquela panela por longos minutos e nada... mais um pouco e nada... nada...
- Ô mãe, acho que fiz algo errado!
Enquanto fui chamar para ver o que tinha feito (como se não soubesse), segundo desastre. Não sei explicar o que foi, mas estava tudo tão duro e grudado na panela que estava mais pra cimento do que para rapadura. 
Enfim, vou seguir as instruções. Tirei um pouco do açúcar, coloquei mais água. Ainda estava estranho... começou a derreter. Agora é hora do amendoim. Mexendo mais um pouco. Começou a melhorar. Mexer mais. Logo aquela coisa estranha, ficou bonita, uniforme, com cheirinho bom...
E enquanto esse processo tão simples ocorria, minha mente voava e filosofava sobre tentativa-erro.
Alguns cientistas afirmam que aprendemos por insigth, outros dizem que é por experiência, tantas outras teorias que nem vou citar... 
Sempre preferi aprender por insigth, parece mais inteligente, do tipo: "sou geneticamente programada para ser uma pessoa esperta", confesso que em muitas situações fui assim.
Contudo, ultimamente, tenho vivido o "processo rapadura" com frequência. Erros e mais erros, muito açúcar, pouca água, fogo alto, fogo baixo, queimo a mão, canso o braço e continuo tentando e tentado de novo. 
Para alguém que sempre viu o erro com toneladas de preconceito, é bastante torturante ter que descer do palco de orgulho e vaidade para humildemente aprender com os erros e com suas consequências.
Porém ver a receita dando certo hoje, me fez pensar no quanto é valioso o processo todo. É, esse processo de transformação ao qual vivo tentando me sujeitar. Já desisti de mudar o mundo, mas não quero desistir de me mudar. Só fui me dar conta disso, depois de inúmeras vezes fracassar e sofrer pelos fracassos. Agora, percebo que assim como uma receita que não dá certo e me obriga a refazê-la, cada novo amanhecer é uma tentativa de receita. Em um dia refazendo a que errou, no outro tentando uma nova.
Sempre fui pressionada com a ideia de que repetir o mesmo erro é burrice. A pouco aprendi que as nossas maiores transformações acontecem nas guerras que tivemos que lutar mais de uma vez.
Procuro erros novos e vejo que eles são ainda mais dolorosos do que repetir os antigos.
E assim segue o processo de me transformar em quem eu sou. De descobrir quem eu sou, e ser de proposito...
E sobre a receita de vida? Sugiro ouvir melhor aos que sabem mais e ter humildade para se permitir aprender com aqueles que não são tão inteligentes como você. Há tesouros preciosos nas pessoas simples. E ainda mais nas mães...