segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Árvores caídas



A janela encontra-se aberta. A brisa sobrepõe-se a meu ser hiperativo, acalmando-me. Noite nublada. Sem estrelas. A lua esconde-se, tímida por trás das nuvens. Opaca, sem brilho.
Quem de nós as vezes não parece com essa lua? Quem de nós as vezes não é obscurecido pelas nuvens da vida? Qual é o ser humano que não esteve coberto pela saturação cinza que a existência permite pintar? Quem?
Estamos introjetados em uma sociedade onde todos tem seus problemas. Suas dúvidas. Suas dificuldades. Em níveis, e hierarquias diferentes. Mas são dificuldades. Opacidades. Pouco brilho na vida.

Não são todos que possuem o dom da oratória. Lutam contra a timidez.
O dom da empatia. Lutam para serem aceitos por todos.
Nem todos possuem a inteligência e raciocínio rápido. Esses sofrem em seus empregos.

Todos possuem algo em seu ser, na qual sentem-se incomodados. Uma dificuldade hereditária. Psicológica. Genética.

Pode ser definido como espinho na carne. Espinho que jamais poderá ser retirado. Espinho que estava presente no momento em que os cromossomos começaram a serem gerados através do vínculo, esperma / óvulo.

Nossa personalidade dita nosso caminho. Nossa genética tem grande parcela nesse caminho. Mas e quando esse tipo de dificuldade não é nada perto dos problemas que adquirimos na estrada? Como ficamos? Opacos? Sem brilho? Com a aparência dessa lua que estou vendo agora?

A vida é como uma larga estrada. Uma estrada de chão. Muita poeira. Muitos buracos. Muitas curvas acentuadas. Subidas íngremes. Descidas oscilantes. Em certos trechos arborizados. Vastas plantas. Em outros trechos encontramos aquele paradisíaco e lindo, deserto ao redor. E ai estamos. Caminhando. Os dias passando. Vamos rumos ao final. Chegar a algum lugar que não conhecemos, mas sabemos que existe. Dias as vezes normais. Outros chuvosos, com lamas atrapalhando o andar de nossos pés. Alguns dias sem a sombra das árvores para reduzir a intensidade do sol. Alguns dias mais empoeirados. Assim vamos andando.
Cheguei a conclusão de usar a estrada como um paralelo a nossa vida, pelo fato de ter tido um sonho noite passada. Um sonho pouco criativo perto dos que costumo ter, porém esse sonho serviu para  lembrar-me da existência de Um que jamais deixará de estender-nos as mãos quando precisarmos.

 Estava vindo por uma estrada como essa que citei acima. Os dias passando. Em dado momento, torci o tornozelo em um buraco e estava andando com muita dificuldade. Em outra situação, começou a formar-se uma tempestade e comecei a correr, tropecei em algo e machuquei o joelho. E os dias iam passando. Eu preso nesse sonho maluco sem fim e sentindo a dor de minhas torções.
Caminhando. Caminhando. Caminhando.
Até que encontrei em minha estrada, uma árvore em proporções gigantescas, caída. Atravessada no único acesso que eu teria. Grossos galhos, vastas folhagens. Impossível ultrapassar no estado que eu estava. Bom, vamos lá. Tentar ultrapassá-la.
Na primeira tentativa de escalá-la, dei uma pancada no joelho machucado ao tentar agarrar-me em um galho e me impulsionar para cima. Um diâmetro inexplicável tinha aquele tronco. Os galhos atrapalhavam. Tentei novamente. Pensei um jeito. Insisti. Até que sentei-me a sombra dela e desisti. Acomodei-me ali e perdi o ânimo. O brilho fugiu. A vontade de fazer algo desapareceu. A opacidade surgiu. E ali fiquei. Esperando a espera de esperar algo acabar.
Então olho para o campo e vejo alguém vindo em direção a cerca. Ele cruza o alambrado e desloca-se até mim. Um Senhor de cabelos compridos até os ombros. Uma calça jeans rota e suja pelo trabalho do campo. Uma camisa encardida e molhada pelo suor, colocada de qualquer maneira para dentro das calças. Mangas suspensas mostravam braços amorenados pelo provável trabalho diário ao sol. O chapéu de palha geravam sombra para seu rosto. Prostasse a minha frente, curva sua fronte e direciona o olhar para mim. Um olhar sereno e seguro. Olhar de alguém que já sabia o que era ter árvores caídas em sua estrada. Com toda calma do mundo ele abaixa-se até a altura em que eu estava e estende sua mão. Lenta e suavemente, a espalma para mim como se fosse ajudar-me a levantar dali. Olhei para ela. E o que vi foi a marca de uma cicatriz profunda. Ossos e nervos separados, contornando aquele buraco em sua mão. Ele sorriu da maneira com que olhei para sua mão e disse:

Já caiu muitas árvores em minha estrada filho. Uma em especial muito maior, muito mais pesada, e pode acreditar muito mais dolorosa do que essa que está atrapalhando sua caminhada. Carreguei-a até o final de meu caminho. E ela ainda me deixou essas marcas nas mãos, para que eu nunca me esqueça: Posso vencer todos os obstáculos, por impossíveis que pareçam e sejam.
Levanta daí, tens muito chão pela frente. Vem que te ajudo com esse trecho aqui.
J.Gonçalves.